Diário

Entre estudos e reflexões, o cuidado.

Reflexões curtas sobre presença, relações e o cotidiano da terapia. Um caderno aberto — para pensar em voz alta.

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Ago 2026 · 7 min

Inteireza não é perfeição

Sobre aceitar todas as nossas partes, sem exigência de perfeição.

Talvez tenhamos aprendido, em algum momento, que para sermos inteiras precisaríamos estar completas. Sem faltas, sem excessos, sem contradições. Como se fosse possível chegar a um lugar em que tudo finalmente estivesse perfeitamente organizado, ou simplesmente onde deveria estar.

Mas inteireza não é perfeição.

A perfeição é um horizonte que se desloca à medida que caminhamos. Quando parece que chegamos, ela já está um pouco mais adiante. E assim, na busca pelo inalcançável, podemos passar muito tempo tentando corrigir aquilo que somos, como se sempre houvesse algo em nós precisando ser melhorado.

O perfeccionismo pode nascer desse movimento: uma tentativa incansável de alcançar uma versão ideal de si mesma. Ser mais competente, mais bonita, mais produtiva, mais equilibrada, mais forte. Fazer melhor. Sentir menos. Errar nunca.

E, enquanto perseguimos essa imagem, talvez deixemos de encontrar a pessoa que está aqui.

No processo terapêutico não partimos da ideia de que existe uma versão ideal de quem deveríamos ser. Partimos do encontro com aquilo que somos, no aqui e agora. Com o corpo que sente, com a emoção que chega, com o desejo que se revela, com os limites que aparecem e também com aquilo que ainda não conseguimos compreender.

Inteireza não significa não ter partes difíceis.

Significa poder reconhecê-las.

É haver espaço para a coragem e para o medo. Para a força e para o cansaço. Para o desejo de avançar e para a necessidade de parar. Para aquilo que sabemos e para aquilo que ainda está se formando em nós.

Talvez ser inteira seja não precisar se dividir para caber.

Não precisar esconder a fragilidade para parecer forte. Não precisar transformar toda dúvida em certeza. Não precisar estar sempre à altura de uma expectativa — nem mesmo daquela que criamos sobre nós mesmas.

Há algo de profundamente saudável em poder se encontrar como se está, em vez de permanecer em guerra com quem se gostaria de ser.

Porque quando a perfeição se torna condição para nos reconhecermos, a vida pode ficar suspensa: sempre esperando o momento em que estaremos prontas, certas, melhores, suficientes.

Mas esse momento talvez nunca chegue.

E talvez não precise chegar.

A inteireza é outra coisa. É menos uma chegada e mais uma presença. Um modo de estar consigo que permite perceber: isto também sou eu. Esta alegria. Este medo. Esta contradição. Este limite. Este desejo. Esta parte que ainda não sei nomear.

Ser inteira não é não ter falhas.

É poder habitar a própria humanidade sem precisar consertá-la o tempo todo.

Talvez, quando deixamos de perseguir a perfeição, alguma coisa em nós finalmente possa respirar.

E, no lugar de uma vida orientada pelo eu deveria ser, possa surgir a pergunta, mais simples e mais viva:

Quem sou eu, aqui, agora?