Ago 2026 · 10 min
A ansiedade também mora no corpo
Sobre como o corpo fala antes que a consciência consiga nomear o que sentimos.

A ansiedade é um sentimento. Existe, como tantos outros que nos atravessam.
Quando cumpre sua função de nos preparar para algo perigoso, difícil ou importante, ela cabe certinho em nosso ser. Faz parte da nossa capacidade de perceber o que acontece ao redor e nos mobilizar diante daquilo que importa.
Mas é perceptível que ela tem aparecido quase constantemente para muita gente — para não dizer para a maioria das pessoas.
O mundo estaria assim tão perigoso, difícil ou importante?
Não vou entrar em uma reflexão social neste momento, embora ela coubesse. Afinal, somos seres coletivos. Não estamos desconectados do meio. Ao contrário: só somos porque o meio também nos constitui.
É fácil perceber a ansiedade quando nos pegamos pensando constantemente no trabalho que precisamos entregar, na roupa que precisa ser lavada, no que será do nosso futuro ou do futuro dos nossos filhos, se haverá estacionamento no destino final, se a rua estará vazia quando sairmos do metrô.
Mas nem sempre ela chega como pensamento.
Às vezes, chega primeiro pelo corpo.
Um aperto no peito. A mandíbula que permanece contraída. O estômago que se fecha. Os ombros que sobem sem que percebamos. Uma respiração curta, apressada. O coração que acelera. Uma inquietação que não encontra lugar para pousar.
E, muitas vezes, nem chamamos isso de ansiedade.
Chamamos de cansaço. De tensão. De dor de cabeça. De falta de ar. De insônia. De irritação. De “é só uma fase”.
O corpo, porém, está sempre em relação com aquilo que vivemos.
Na Gestalt-terapia, não compreendemos o corpo como algo separado daquilo que sentimos, pensamos e fazemos. Somos uma unidade em constante contato com o mundo. O que acontece fora de nós também acontece em nós.
Por isso, às vezes, o corpo percebe antes que a consciência consiga nomear.
Ele aperta antes de sabermos o que nos preocupa. Acelera antes de entendermos do que temos medo. Cansa antes de reconhecermos o quanto estamos exigindo de nós mesmas.
Escutar o corpo não significa transformar todo sintoma em ansiedade. Nem procurar imediatamente uma explicação para cada sensação.
Significa, antes, poder parar por um instante e perceber.
O que está acontecendo comigo agora?
Onde meu corpo se contrai? O que se move? O que parou? Como estou respirando? O que estou sentindo?
Essa percepção é um caminho para ampliar a consciência sobre a experiência que está acontecendo aqui e agora.
Não para controlar o que sentimos, mas para nos aproximarmos de nós mesmos.
Talvez a ansiedade não esteja simplesmente querendo ir embora.
Talvez ela esteja tentando nos mostrar alguma coisa.
Uma necessidade que ficou em segundo plano. Um limite que foi ultrapassado. Um desejo que não encontrou espaço. Um medo que ainda não pôde ser reconhecido. Uma forma de viver que já não está cabendo.
Quando conseguimos escutar o que acontece em nós, a ansiedade pode deixar de ser apenas algo a ser combatido.
Pode se transformar em uma porta de entrada para o encontro conosco.
Porque, às vezes, antes de conseguir dizer “estou ansiosa”, o corpo já estava dizendo:
“alguma coisa aqui precisa ser percebida.”